Cada pessoa é um mundo, mas podemos analisar cada mundo, e quem sabe classificá-los em grandes grupos, na maneira como lidamos com nossos sentimentos.
Na praia, por exemplo, os pais querem que seus filhos gostem do mar, tanto quanto eles gostam. Por isso usam de vários estratagemas, indo devagar, aproximando seus filhos do prazer de estar na água, brincando junto.
Mas o que aconteceria se o filho emperrasse na beirada da água e não quisesse entrar de jeito nenhum?
Basta ficar parada em qualquer praia, para perceber que cada um lida com a situação à sua maneira: uns brincam, outros ralham, outros desconsideram os berros de medo dos filhos.
Certa mãe, ao ver seu filho com medo, puxava sua mão, e dizia vem, vem filho, se você não vier vou te jogar na água! E ria.
Interrompi, e fui conversando com a mãe que daquela maneira o medo da criança só ia aumentar. Tão logo ela se desconcentrou, o menininho (devia ter entre 1 e 2 anos) saiu correndo em direção oposta ao mar.
O que ela esperava? Que suas ameaças diminuíssem seu medo? Que ele ponderasse que não deveria ser tão ruim? Será que com este discurso ela esperava boa vontade de um bebe????
Claro que este exemplo é bem básico, e não acredito que você obrigue seu filho a entrar no mar enquanto ele estiver com medo. Mas não é isso que fazemos quando nossos filhos nos desobedecem e nós achamos que a desobediência depende somente da boa vontade deles? Não é assim que lidamos com as limitações que eles nos apresentam? Não dizemos: Aprenda! Emagreça! Fique calma menina! Passe no vestibular! Pare de fumar! Pare de beber! Pare…
Pergunto: o que estamos esperando com isso? Será que nossas “ordens” podem ser cumpridas somente pela vontade?
Da mesma forma que o menininho não tinha forças para enfrentar seu medo do mar, da mesma maneira que ele via seu oponente em toda sua magnitude, nossos filhos podem estar vendo seus problemas maiores e mais poderosos do que eles são.
Portanto, da mesma maneira que os pais vão aproximando os filhos do mar, ensinando como lidar com ele, mostrando os perigos e o lado bom, deveríamos lidar com os outros problemas que eles enfrentam.
É claro que as crianças precisam aprender a se defender e a enfrentar os medos que a vida providencia, mas ensinar como lidar com os medos, deveria fazer parte da educação. Perceber que está com medo e criar estratégias para enfrentá-lo, é parte do papel dos pais e educadores.
Diz Paulo Freire que é o medo do oprimido que o inibe de lutar[1]. Ele comenta o que nós do Florescer também percebemos: que é impossível se desvencilhar do medo, se achamos que o inimigo é imbatível. Por isso é preciso ir desmontando o oponente, seja ele alguém, ou o mar, e mostrando para o medroso, que o inimigo tem suas vulnerabilidades. Desta forma podemos transformar nossas fraquezas, neste caso nossos medos, em força de enfrentamento.[2]
Fiquei pensando em porque uma mãe diria isso a um filho assustado e concluí que era assim que ela lidava com seus problemas: sem espaço para sentir, e por isso mesmo sem planos de como lidar com as dificuldades, na raça.
Mas será que dá certo?
Bom ano novo. Boa semana.
[1] Paulo Freire – Pedagogia da Esperança – Ed. Paz e Terra – 16º edição- pag 125
[2] Dora Lorch é co-autora de Ruth Rocha na coleção “Os Medos que eu tenho” Ed. Moderna