jan 13

 Cada pessoa é um mundo, mas podemos analisar cada mundo, e quem sabe classificá-los em grandes grupos, na maneira como lidamos com nossos sentimentos.

Na praia, por exemplo, os pais querem que seus filhos gostem do mar, tanto quanto eles gostam. Por isso usam de vários estratagemas, indo devagar, aproximando seus filhos do prazer de estar na água, brincando junto.

Mas o que aconteceria se o filho emperrasse na beirada da água e não quisesse entrar de jeito nenhum?

Basta ficar parada em  qualquer praia, para perceber que cada um lida com a situação à sua maneira: uns brincam, outros ralham, outros desconsideram os berros de medo dos filhos.

Certa mãe, ao ver seu filho com medo, puxava sua mão, e dizia vem, vem filho, se você não vier vou te jogar na água! E ria.

Interrompi, e fui conversando com a mãe que daquela maneira o medo da criança só ia aumentar. Tão logo ela se desconcentrou, o menininho (devia ter entre 1 e 2 anos) saiu correndo em direção oposta ao mar.

O que ela esperava? Que suas ameaças diminuíssem seu medo? Que ele ponderasse que não deveria ser tão ruim? Será que com este discurso ela esperava boa vontade de um bebe????

Claro que este exemplo é bem básico, e não acredito que você obrigue seu filho a entrar no mar enquanto ele estiver com medo. Mas não é isso que fazemos quando nossos filhos nos desobedecem e nós achamos que a desobediência depende somente da boa vontade deles? Não é assim que lidamos com as limitações que eles nos apresentam? Não dizemos: Aprenda! Emagreça! Fique calma menina! Passe no vestibular! Pare de fumar! Pare de beber! Pare…

Pergunto: o que estamos esperando com isso? Será que nossas “ordens” podem ser cumpridas somente pela vontade?

Da mesma forma que o menininho não tinha forças para enfrentar seu medo do mar, da mesma maneira que ele via seu oponente em toda sua magnitude, nossos filhos podem estar vendo seus problemas maiores e mais poderosos do que eles são.

Portanto, da mesma maneira que os pais vão aproximando os filhos do mar, ensinando como lidar com ele, mostrando os perigos e o lado bom, deveríamos lidar com os outros problemas que eles enfrentam.

É claro que as crianças precisam aprender a se defender e a enfrentar os medos que a vida providencia, mas ensinar como lidar com os medos, deveria fazer parte da educação. Perceber que está com medo e criar estratégias para enfrentá-lo, é parte do papel dos pais e educadores.

Diz Paulo Freire que é o medo do oprimido que o inibe de lutar[1]. Ele comenta o que nós do Florescer também percebemos: que é impossível se desvencilhar do medo, se achamos que o inimigo é imbatível. Por isso é preciso ir desmontando o oponente, seja ele alguém, ou o mar, e mostrando para o medroso, que o inimigo tem suas vulnerabilidades. Desta forma podemos transformar nossas fraquezas, neste caso nossos medos, em força de enfrentamento.[2]

Fiquei pensando em porque uma mãe diria isso a um filho assustado e concluí que era assim que ela lidava com seus problemas: sem espaço para sentir, e por isso mesmo sem planos de como lidar com as dificuldades, na raça.

Mas será que dá certo?

Bom ano novo. Boa semana.


[1]  Paulo Freire – Pedagogia da Esperança – Ed. Paz e Terra – 16º edição-  pag 125

[2] Dora Lorch é co-autora de Ruth Rocha na coleção “Os Medos que eu tenho”  Ed. Moderna

nov 15

Pode parecer estranho, mas tenho percebido que muitas crianças tem medo de ET, com seus olhos enormes e seus poderes inimagináveis. Não se enganem, estes ETs não são seres extra terrestres como pode parecer, são seres bravos! Isso mesmo, as crianças ficam desconfiadas que suas mães e pais possam ser ETs quando eles ficam muito nervosos. Vale lembrar que os filhos são seres frágeis, e tem medo de não serem aceitos, de não serem amados, de serem abandonados. Por isso,  algumas crianças desconfiam que os pais quando ficam “fora de controle” ( muito nervosos, muito bravos, explosivos) foram “abduzidos”.  Melanie Klein já dizia que os bebes reconheciam um seio bom e um seio mau, e o seio mau era aquele que não estaria de prontidão quando o bebe precisasse;  por isso acho que os ETs para estas crianças,  são a encarnação da mãe má, aquela que briga,  aquela que não faz o que o filho quer, aquela que dá medo, em outras palavras, todas nós em algum momento.

Outras crianças tem outros  medos não menos assustadores, como por exemplo,  medo de Jesus. Lembro de uma menininha que não conseguia passar pela sala onde havia um quadro da santa ceia: temia que Ele visse alguma coisa que ela teria feito de errado, e a castigasse.

Por isso nós do Florescer não estranhamos os medos  que aparecem, e não foi diferente com Maíra.  Ela tinha medo de ETs. Pesquisamos o relacionamento familiar: pai que batia, mãe deprimida que não conseguia parar os excessos do pai. Conversamos com pai e mãe, fortalecemos a família, mas nada disso mudou o medo da filha.

Conversa vai, conversa vem, descobrimos que ela ficava na casa de uma cuidadora quando voltava da escola, e esta mulher tinha um filho adolescente. Estranhamos. O psicólogo perguntou à menina o que ela achava do tal garoto. Ela se retraiu. Investigando,  descobrimos que ele abusava dela  na hora em que a mãe dele ia para cozinha fazer qualquer coisa.

Seria este o medo do ET?

Foi numa roda de conversa, que descobrimos que a mãe já tinha ouvido a filha reclamar do abuso, e por isso mudara de cuidadora.  A mãe sentiu-se diminuída, como se o abuso fosse  culpa sua. Impotente por não conseguir cuidar de Maíra como deveria, esmagada por suas convicções religiosas, vivia apavorada com a possibilidade de ser chamada no Conselho Tutelar, e talvez perder a guarda da menina.

De repente tudo fez sentido:  D. Antônia,  a senhora tem noção que sua filha é uma menininha indefesa em relação a um adolescente? Sabe que um adolescente é maior, mais forte e tem poder de persuasão?  Sabe que ela não teve escolha? Quer dizer, ela pode ter cedido ao abuso, mas o que ela poderia fazer nestas circunstancias? Estou sentindo que a senhora avalia esta situação como se a Maíra fosse grande e dona de seu nariz, mas não é o caso.

A senhora é muito religiosa não é? Leva sua filha à  igreja? Já lhe falou sobre pecados?

Chamamos Maíra e perguntamos sobre a igreja, os sermões e os pecados. Ela começou a chorar.  D. Antônia também desabou num choro de culpa e dor. Ambas  acharam que  tinham pecado mortalmente e temiam pela punição divina, uma por permitir o abuso, outra por não ter conseguido evitá-lo.

O medo do ET era na verdade, o medo de um ser onipresente, onipotente e que viria castigá-la. O medo de Maíra era o medo de Deus.

Fica aqui um recado para pais religiosos: cuidado com o que você fala sobre Deus, porque isso pode afastar seus filhos do mais importante,  do amor fraternal e incondicional que Jesus pregou.

Boa semana

out 19

 Como é dura a vida das mães!  Apesar de todo  trabalho e esforço que fazemos para ajudar os filhos com a infra-estrutura do presente, e nos seus planos de futuro; das tentativas de ajudar com nossa experiência, a encurtar caminhos e mostrar onde há  becos  sem saída, ainda temos que aguentar a onipotência dos adolescentes, que acham que sabem tudo, e que nós adultos só não mudamos o mundo porque “ não tínhamos realmente vontade”.

E quantas vezes não ficamos ouvindo uma história que nunca mais termina, tantas vezes repetida;  azar o seu se tentou dar uma opinião! Você não entende mesmo! Se criticou, foi muito dura; se não falou nada,  não estava levando a conversa a sério.

Afinal, o que eles querem e porque brigam tanto com a gente?

Os filhos estão aprendendo seus limites, tem muito medo de se depararem com eles e não saberem o que fazer. Perceber que não somos capazes de fazer algo que queremos muito, é mesmo frustrante, mas não é o fim da linha. Na verdade é o começo, porque ao falhar nos deparamos com o que falta, e esta lacuna nos impulsionará para conseguir o que desejamos. Mas aos olhos dos mais jovens um deslize pode ser uma sentença de incapacidade eterna.

Por isso é mais fácil brigar com os pais, e por a culpa destes limites neles. Assim o adolescente continua com a sua onipotência,  e a responsabilidade por não ter dado certo, adivinha, é dos pais.

É aí que muitos pais se cansam e acham que os filhos podem fazer o que quiserem, afinal são grandes.

Mas o que fazer se o filho acha que não deve estudar, ou se acha que não vai conseguir aprender? Largar mão? Insistir?

Na verdade a questão é outra, a desistência tem a ver com a visão que cada pessoa tem de suas capacidades, e de como vai ultrapassar suas limitações. Aliás, Yves de La Taille[1] diz que limites existem para serem ultrapassados. Tem pessoas que acham que não são capazes de  aprender determinada matéria, como matemática por exemplo, e mesmo antes da explicação já estão cheias de dúvidas. Estas pessoas não têm dificuldade de aprender, tem problema de auto-estima!

Para crescer, nós temos que acreditar em nosso potencial, conhecer nossos pontos fracos e nossos pontos fortes, e descobrir o que temos que fazer para alcançar o que almejamos. Temos que perder o medo de errar e de ver onde erramos ( senão ninguém consegue concertar). Temos que ter persistência para construir este caminho e construções costumam ser demoradas. É aí que os jovens tendem a desistir: para eles um ano é uma eternidade. Mas nós sabemos que um ano, na perspectiva de uma vida, é pouco.

Além disso, ao brigar conosco, os filhos radicalizam uma posição e esperam que nós radicalizemos de outro lado. Desta forma, eles só ficam com o lado bom, e cabe a nós a parte “estragada”. Por isso radicalizar não funciona, os adolescentes ficam com uma única visão fracionada da realidade, o que dificulta a percepção do todo.

Pode ser que o caminho não valha o esforço, e aí desistimos. Mas vamos desistir de nossos filhos só porque eles não acreditam nas suas capacidades? Vamos desistir porque eles tiveram um “chilique”?

Nesta semana, véspera do Enem, muitos pais estão sofrendo junto com seus filhos. A vida não acaba depois do exame. Nem se passar, nem se não passar. Nós, pais e educadores devemos  fazer com nossas crianças, adolescentes e jovens adultos,  como os índios com a dança da chuva. Sabe por que a dança da chuva funciona? Porque os índios dançam até chover.

Boa semana do Enen. Boa dança.


[1] Yves de La Taille –Limites: três dimensões educacionais – Ed Summus

out 5

  A história do menino que matou a professora e se matou deixou o país indignado. Recebi muitos telefonemas querendo saber o que aconteceu com ele.

 Não tenho a resposta, mas posso pensar sobre o caso. Sabemos que ele era um aluno alegre, de bom relacionamento. Leia a postagem completa »

jul 26

Quem briga quer distância? Quer mesmo terminar um relacionamento? Quando alguém briga com o parceiro porque quer compania, está querendo se separar?

Há dois tipos de briga, uma de quem quer distância, quando não agüentamos  mais ouvir a voz do parceiro;  outra de quem quer proximidade, e briga para ficar mais tempo junto, ou para chegar a um consenso.  A primeira é uma briga pela separação, a outra é uma briga pela união. Mas nem sempre o companheiro se dá conta de porque estamos bravos. Leia a postagem completa »

jul 15

 

Tem mãe que procura ajuda psicológica para o filho e acha que ele vai mudar do ruim para o bom num piscar de olhos. Mas como as pessoas não são instantâneas, isso não acontece. Na verdade, antes de “ficar bom”, antes de encontrar o equilíbrio, os pacientes passam por fases nem um pouco agradáveis.  Isso complica quando recebemos uma criança boazinha, um amor, mas que tem, por exemplo, um problema de saúde. Para os pais aflitos, tudo o que eles querem é que aquele problema suma, como num passe de mágica, sem alterar as outras boas qualidades do filho ou da filha. Leia a postagem completa »

jun 21

 Tenho percebido que os pais estão cada vez mais perdidos em relação aos adolescentes. Primeiro porque a vida mudou muito nestes últimos anos: internet,celular, tweeter,  bate-papo on line, baladas até o sol raiar… Junto a tantas mudanças os novos códigos de conduta: não pode agredir, não pode dar apelidos, não pode  brigar na porta da escola, não pode transar se for menor de idade, não pode, não pode.

Todas estas regras inibem a agressividade dos adolescentes, logo deles, tão cheios de hormônios e desejos impossíveis! Leia a postagem completa »

jun 7

Há ainda aquela dúvida clássica: por que eu? O que eu tenho para dizer aos outros?

Talvez você seja porta-voz de idéias e sentimentos de muitas pessoas, e isso já é o diferencial. Fique atento aos outros: o que eles gostam de ouvir você dizer? Estas coisas, que na maioria das vezes nos parecem óbvias, porque fazem parte da nossa visão de mundo, podem ser especialmente interessantes para algumas pessoas,  e estas percepções talvez merecessem ser escritas. Não precisa ser nada tão diferente: alguns colunistas se destacam por seu humor, ou por sua maneira de ver a realidade, ou pela maneira única de expressar sentimentos, emoções, realidades.

Há algumas discussões sobre o que é literatura, se ela deve ter um objetivo, se ela vale por si só;  Ana Maria Machado tem um  livro com várias palestras sobre este assunto  (Contracorrente:  Conversas sobre literatura e política, Ed. Ática, 1999 ). Nele, cita  Roberto Drummond comentando a “necessidade de  nos livrarmos da censura de esquerda, que na verdade somos nós mesmos, já que alguns autores  se cobravam ter um ideal a defender. Ana  lembra que na literatura vale tudo, a vida, os amores, sonhos, decepções…”

Além disso, cada um de nós tem sua maneira de contar os fatos, e este jeito é trabalhado ao longo de um tempo. Por vezes queremos fazer um texto de uma maneira, mas não estamos  certos de como transmitir aquela idéia, ou ainda a associação de idéias acaba nos levando para lugares inesperados. A essência pode continuar a mesma, ou seja, o que você queria vai ser dito, mas a forma, esta precisa ser lapidada.

Aqui vem uma dica, como qualquer atividade nova na nossa vida, escrever demanda treino, disciplina e constância para que a atividade possa ser automatizada.  Esta prática leva a destreza necessária para escrever no seu estilo. Ana Maria Machado, no livro Ruth e Ana, conta que no começo de sua carreira se esforçava para escrever todos os dias, pelo menos uma página. Pode parecer pouco, mas uma página bem escrita demanda muitos pensamentos, sentimentos e releituras, e trabalho árduo!

Outra dificuldade da escrita: alguns assuntos que nos chamam atenção podem esbarrar em sentimentos que nos causem sensações desagradáveis. Então nosso inconsciente nos leva por meandros que nem sempre temos condições conscientes de resolver. Nestes casos o texto fica parado até que o inconsciente consiga uma maneira de sublimá-lo, ou em linguagem leiga, até que o inconsciente consiga encontrar um jeito de lidar com a situação. Quem sabe a solução não pode vir da reflexão sobre o texto?

Por isso é importante alguns cuidados:

Primeiro: não se preocupe com o que as pessoas vão pensar. Você não consegue controlar os pensamentos dos outros, portanto desconsidere esta variável. Preocupe-se em mostrar o que você acredita. Faça uma escrita que lhe apeteça, que saia de dentro, que te encante.

Além disso, como é que você sabe que as críticas serão aquelas que passam pela sua cabeça? Não sabe. E quem disse que a crítica está certa? Vemos muitos filmes que a crítica não gosta e o público adora, e vice-versa.

Segundo: escreva pensando em alguém, tanto faz em quem. Quando se escreve pensando em alguém o pensamento sai coerente do começo ao fim, a escrita  faz sentido.

Terceiro: um bom texto traz alguma coisa nova, um ponto de vista, a argumentação, a maneira de encadear os fatos, a ironia, etc. Este algo mais é a maneira do escritor transcrever a realidade, seus valores e esperanças, e é único. Portanto, seu ponto de vista faz diferença.

Quarto: não critique tanto seu texto depois de pronto, deixe-o decantar por um ou dois dias e só depois o releie. Este tempo pode lhe ajudar a identificar se fez ou não um bom trabalho. Quando lemos a escrita em seguida, não conseguimos ter uma boa crítica.

Quinto:  peça a opinião de pessoas que você confie, mas que possam fazer uma leitura crítica. Dizer que está ótimo, só porque gostam de você não ajuda.

Finalmente não desista. Por mais trabalhoso que seja, escrever é uma atividade profundamente prazerosa.

Boa semana e boa escrita.

jun 1

 Quantas vezes temos uma idéia brilhante e achamos que esta idéia daria um artigo, um livro, uma peça? Mas ao sentarmos em frente ao computador, de repente a idéia vai embora, talvez não totalmente,  falta  alguma coisa para que a escrita saia. Cada frase, cada pensamento nos remete a críticas que alguém possa fazer. Tudo nos leva ao fracasso.

Mas o que causa este bloqueio? Leia a postagem completa »

mai 23

http://estilo.uol.com.br/comportamento/ultimas-noticias/2011/05/12/saiba-como-responder-as-perguntas-embaracosas-das-criancas.htm?action=print

É comum  os pais quererem saber  o que responder a seus filhos.

Aqui está uma reportagem feita pela  Renata Rode para a UOL, com a colaboração da Tânia Zagury e minha.

Boa leitura

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