Quem briga quer distância? Quer mesmo terminar um relacionamento? Quando alguém briga com o parceiro porque quer compania, está querendo se separar?
Há dois tipos de briga, uma de quem quer distância, quando não agüentamos mais ouvir a voz do parceiro; outra de quem quer proximidade, e briga para ficar mais tempo junto, ou para chegar a um consenso. A primeira é uma briga pela separação, a outra é uma briga pela união. Mas nem sempre o companheiro se dá conta de porque estamos bravos.
Isso é especialmente verdade nas histórias de amor em que um deles é abandonado. Ficamos tristes e com raiva de quem abandonou. Sempre achamos que o abandonado é a vítima, mas nem sempre as coisas são o que parecem. Pode ser que o abandonado tenha provocado o abandono.
Joana era uma moça bonita, interessante e apaixonada por Guilherme. Guilherme também era apaixonado por Joana, só que não sabia mais o que fazer para provar seu amor. Se deixasse de telefonar no horário marcado, mesmo se tivesse uma ótima explicação, era espezinhado pela namorada. Se quisesse sair com os amigos, ou com o irmão, só para bater papo, outra crise. A situação foi ficando tão tensa que chegaram a trocar ofensas. Tudo ia bem enquanto eles estivessem só os dois, mas bastava ele querer sair para a casa vir a baixo. Mesmo que fosse para trabalhar.
Joana percebia que extrapolava, mas não sabia mais o que fazer porque a explosão de sentimentos era mais forte do que sua razão. Aliás foi por isso que ela veio procurar ajuda do Florescer da Fábrica.
Numa conversa fomos conhecendo melhor a Joana e o Guilherme, e percebendo que as fantasias de Joana estavam atrapalhando o relacionamento. Fomos percebendo que ela cobrava demais, que ia criando obstáculos no relacionamento para que Guilherme os ultrapassasse e “provasse” que a amava.
Perguntei: quem te abandonou? Ela ficou surpresa, era sempre ela quem acabava com os namoros. Insisti: mas quem foi que te abandonou??? Ela arregalou os olhos e perguntou: – Na vida? Meu pai. Mas ele não me abandonou, ele morreu!
Joana não percebia que seu nervoso não era pelo namorado, mas por seu pai. Sua morte tinha deixado marcas profundas, de medo e certeza de que perderia todos aqueles a quem amasse.
Ela brigava para não sentir a dor e o desespero que a falta de notícias despertava. Cada ausência significava uma perda em potencial. Mas como o Guilherme não era seu pai, não adiantava o que ele fizesse, nada aplacaria a falta do seu pai. Por isso que ela pensava uma coisa, mas agia impulsivamente segundo padrões antigos de comportamento.
O medo de perder era tamanho que “abortava” os relacionamentos, de modo que não “perdesse” novamente aqueles a quem amava. E ao longo do caminho ia provocando pequenos abandonos, nas brigas, nas crises, quando não procurava quem ela queria ver. Estes pequenos abandonos iam minando os relacionamentos até que eles se tornassem insustentáveis.
Aí, a sensação da Joana era que sempre ela era abandonada. O que ela não percebia é que ela mesma provocava este tipo de desfecho.
Se ela não percebesse o que a estava movendo, no caso as brigas pelo medo que o namorado desaparecesse como acontecera com seu pai, ia continuar exigindo coisas impossíveis, brigando por besteiras, e sendo abandonada.
Como diria Paulo Gaudêncio, quem abandona já foi muito abandonado.
Boa semana
Maravilhosa, como sempre…
7 de novembro de 2011 às 16:00Luci, muito obrigada.
8 de novembro de 2011 às 13:34Dora