fev 7

Vi encantada o filme enrolados. Achei muito bem caracterizado o humor adolescente,  em especial a cena em que Rapunzel finalmente sai da torre do castelo: ela oscila entre feliz e amedrontada com os ditos de sua mãe de que não será capaz de se virar sozinha; fica entre eufórica  pela liberdade recém adquirida e o receio de que sua  mãe ficaria arrasada com sua independência.

Mas o que mais me chamou a atenção é a música que diz : sua mãe sabe mais. Isso mesmo,  sua mãe sabe mais sobre você do que você mesma.  Fiquei pensando sobre isso e nos muitos casos que atendi e que acompanhei onde os pais interferiram definitivamente na vida dos filhos, na escolha profissional, nos relacionamentos afetivos.

Será que os pais sabem mesmo o que é melhor para seus filhos? Será que a intuição materna é tão boa assim?

Lembro do caso de uma mãe que insistiu para que a filha não fizesse biologia porque isso não era profissão, profissão mesmo era ser advogada, médica, contadora. E impôs pela força do dinheiro, sua vontade. Moral da história, a menina fez a faculdade que a mãe escolheu, se formou e depois de alguns poucos anos largou a profissão. Neste meio tempo, a biologia virou uma profissão das mais reconhecidas com o seqüenciamento dos DNA. As coisas mudaram, e ninguém tinha como prever esta reviravolta, nem a mãe prestimosa.

Porém, mais nefasto do que escolher a profissão, que de uma forma ou de outra podemos mudar, é a intromissão nos assuntos afetivos.

José era um bom menino, inseguro como os adolescentes costumam ser, com receio de não ser amado, de não ser aceito, de não dar certo, com uma mãe possessiva e autoritária,  que só aumentava sua insegurança. Ela tinha certeza que sabia o que era melhor para ele.

Quando José se apaixonou, a mãe fez de tudo para que ele deixasse “aquela mulher” que com certeza não ia lhe fazer bem.

Como Rapunzel, ele se imaginou fugindo com a moça, vivendo do seu trabalho. Mas teve medo de arriscar, porque sabia que teria que acabar a faculdade, estudar no exterior, e isso dependia da boa vontade dos pais. Como Rapunzel ele oscilou entre obedecer e seguir sua vontade, entre a sua percepção da vida e a experiência da sua mãe.

Como filho obediente que era, telefonou para a menina, com a mãe do lado, e disse tudo o que a  mãe lhe recomendara. Chorou muito depois, mas a mãe lhe garantiu que isso passaria.

Ao longo dos anos namorou outras meninas ao gosto da mãe, mas nenhuma despertou paixão. Afinal o que ele queria numa mulher e o que sua mãe desejava eram coisas bem diferentes!

Até que a mãe morreu. E desta coisas da vida, re-encontrou a tal garota, agora mulher, com filhas adultas, ele solteiro, ela divorciada. Numa conversa informal, os sentimentos foram crescendo, a paixão reacendeu.

José tem certeza que ela é sua alma gêmea. Sua mãe acertara em muitas coisas, mas errara na avaliação do amor dos dois.

Então quer dizer que intuição materna não tem valor?

Tem sim. Intuição é um conjunto de aspectos que as pessoas sentem, mas não conseguem decodificar, e por isso mesmo é definida como sensação. Sabe aquela pessoa que foi te visitar e você “intuiu” que ela não se sentiu à vontade? Não seria porque ela sentou na beiradinha da cadeira, com a bolsa no colo, pouco falou e só olhava para a porta? Estes detalhes passam despercebidos, ou seja, há sinais visíveis, só que eles não ficam no consciente.

As mães que olham seus filhos, costumam acertar nos sentimentos que os filhos estão vivenciando, ao avaliar se determinado fato irá fazê-los sofrer, ou se  lhe trará alegrias. Elas em geral acertam no potencial dos filhos,mas é bom lembrar que ao longo da vida nós desenvolvemos habilidades e características que são importantes, porém não há como prever quais.

Quero enfatizar aqui a importância dos filhos ouvirem as histórias de vida da família: pais, avós, tios, porque muito se aprende nestas conversas. Uma coisa é a teoria outra é a prática. Ninguém aprende a tomar sorvete teoricamente, é preciso viver certas experiências.

No tocante às antecipações do futuro,  não há intuição, há opinião e opiniões são falíveis.

O  problema é que os  filhos ouvem o que os pais dizem como se fossem ordens. Só se dão conta que aquela fala era um palpite quando é tarde demais…

Boa semana.

jan 13

 Cada pessoa é um mundo, mas podemos analisar cada mundo, e quem sabe classificá-los em grandes grupos, na maneira como lidamos com nossos sentimentos.

Na praia, por exemplo, os pais querem que seus filhos gostem do mar, tanto quanto eles gostam. Por isso usam de vários estratagemas, indo devagar, aproximando seus filhos do prazer de estar na água, brincando junto.

Mas o que aconteceria se o filho emperrasse na beirada da água e não quisesse entrar de jeito nenhum? Leia a postagem completa »

nov 15

Pode parecer estranho, mas tenho percebido que muitas crianças tem medo de ET, com seus olhos enormes e seus poderes inimagináveis. Não se enganem, estes ETs não são seres extra terrestres como pode parecer, são seres bravos! Isso mesmo, as crianças ficam desconfiadas que suas mães e pais possam ser ETs quando eles ficam muito nervosos. Leia a postagem completa »

out 19

 Como é dura a vida das mães!  Apesar de todo  trabalho e esforço que fazemos para ajudar os filhos com a infra-estrutura do presente, e nos seus planos de futuro; das tentativas de ajudar com nossa experiência, a encurtar caminhos e mostrar onde há  becos  sem saída, ainda temos que aguentar a onipotência dos adolescentes, que acham que sabem tudo, e que nós adultos só não mudamos o mundo porque “ não tínhamos realmente vontade”.

E quantas vezes não ficamos ouvindo uma história que nunca mais termina, tantas vezes repetida;  azar o seu se tentou dar uma opinião! Você não entende mesmo! Se criticou, foi muito dura; se não falou nada,  não estava levando a conversa a sério.

Afinal, o que eles querem e porque brigam tanto com a gente?

Os filhos estão aprendendo seus limites, tem muito medo de se depararem com eles e não saberem o que fazer. Perceber que não somos capazes de fazer algo que queremos muito, é mesmo frustrante, mas não é o fim da linha. Na verdade é o começo, porque ao falhar nos deparamos com o que falta, e esta lacuna nos impulsionará para conseguir o que desejamos. Mas aos olhos dos mais jovens um deslize pode ser uma sentença de incapacidade eterna.

Por isso é mais fácil brigar com os pais, e por a culpa destes limites neles. Assim o adolescente continua com a sua onipotência,  e a responsabilidade por não ter dado certo, adivinha, é dos pais.

É aí que muitos pais se cansam e acham que os filhos podem fazer o que quiserem, afinal são grandes.

Mas o que fazer se o filho acha que não deve estudar, ou se acha que não vai conseguir aprender? Largar mão? Insistir?

Na verdade a questão é outra, a desistência tem a ver com a visão que cada pessoa tem de suas capacidades, e de como vai ultrapassar suas limitações. Aliás, Yves de La Taille[1] diz que limites existem para serem ultrapassados. Tem pessoas que acham que não são capazes de  aprender determinada matéria, como matemática por exemplo, e mesmo antes da explicação já estão cheias de dúvidas. Estas pessoas não têm dificuldade de aprender, tem problema de auto-estima!

Para crescer, nós temos que acreditar em nosso potencial, conhecer nossos pontos fracos e nossos pontos fortes, e descobrir o que temos que fazer para alcançar o que almejamos. Temos que perder o medo de errar e de ver onde erramos ( senão ninguém consegue concertar). Temos que ter persistência para construir este caminho e construções costumam ser demoradas. É aí que os jovens tendem a desistir: para eles um ano é uma eternidade. Mas nós sabemos que um ano, na perspectiva de uma vida, é pouco.

Além disso, ao brigar conosco, os filhos radicalizam uma posição e esperam que nós radicalizemos de outro lado. Desta forma, eles só ficam com o lado bom, e cabe a nós a parte “estragada”. Por isso radicalizar não funciona, os adolescentes ficam com uma única visão fracionada da realidade, o que dificulta a percepção do todo.

Pode ser que o caminho não valha o esforço, e aí desistimos. Mas vamos desistir de nossos filhos só porque eles não acreditam nas suas capacidades? Vamos desistir porque eles tiveram um “chilique”?

Nesta semana, véspera do Enem, muitos pais estão sofrendo junto com seus filhos. A vida não acaba depois do exame. Nem se passar, nem se não passar. Nós, pais e educadores devemos  fazer com nossas crianças, adolescentes e jovens adultos,  como os índios com a dança da chuva. Sabe por que a dança da chuva funciona? Porque os índios dançam até chover.

Boa semana do Enen. Boa dança.


[1] Yves de La Taille –Limites: três dimensões educacionais – Ed Summus

out 5

  A história do menino que matou a professora e se matou deixou o país indignado. Recebi muitos telefonemas querendo saber o que aconteceu com ele.

 Não tenho a resposta, mas posso pensar sobre o caso. Sabemos que ele era um aluno alegre, de bom relacionamento. Leia a postagem completa »

jul 26

Quem briga quer distância? Quer mesmo terminar um relacionamento? Quando alguém briga com o parceiro porque quer compania, está querendo se separar?

Há dois tipos de briga, uma de quem quer distância, quando não agüentamos  mais ouvir a voz do parceiro;  outra de quem quer proximidade, e briga para ficar mais tempo junto, ou para chegar a um consenso.  A primeira é uma briga pela separação, a outra é uma briga pela união. Mas nem sempre o companheiro se dá conta de porque estamos bravos. Leia a postagem completa »

jul 15

 

Tem mãe que procura ajuda psicológica para o filho e acha que ele vai mudar do ruim para o bom num piscar de olhos. Mas como as pessoas não são instantâneas, isso não acontece. Na verdade, antes de “ficar bom”, antes de encontrar o equilíbrio, os pacientes passam por fases nem um pouco agradáveis.  Isso complica quando recebemos uma criança boazinha, um amor, mas que tem, por exemplo, um problema de saúde. Para os pais aflitos, tudo o que eles querem é que aquele problema suma, como num passe de mágica, sem alterar as outras boas qualidades do filho ou da filha. Leia a postagem completa »

jun 21

 Tenho percebido que os pais estão cada vez mais perdidos em relação aos adolescentes. Primeiro porque a vida mudou muito nestes últimos anos: internet,celular, tweeter,  bate-papo on line, baladas até o sol raiar… Junto a tantas mudanças os novos códigos de conduta: não pode agredir, não pode dar apelidos, não pode  brigar na porta da escola, não pode transar se for menor de idade, não pode, não pode.

Todas estas regras inibem a agressividade dos adolescentes, logo deles, tão cheios de hormônios e desejos impossíveis! Leia a postagem completa »

jun 7

Há ainda aquela dúvida clássica: por que eu? O que eu tenho para dizer aos outros?

Talvez você seja porta-voz de idéias e sentimentos de muitas pessoas, e isso já é o diferencial. Fique atento aos outros: o que eles gostam de ouvir você dizer? Estas coisas, que na maioria das vezes nos parecem óbvias, porque fazem parte da nossa visão de mundo, podem ser especialmente interessantes para algumas pessoas,  e estas percepções talvez merecessem ser escritas. Não precisa ser nada tão diferente: alguns colunistas se destacam por seu humor, ou por sua maneira de ver a realidade, ou pela maneira única de expressar sentimentos, emoções, realidades.

Há algumas discussões sobre o que é literatura, se ela deve ter um objetivo, se ela vale por si só;  Ana Maria Machado tem um  livro com várias palestras sobre este assunto  (Contracorrente:  Conversas sobre literatura e política, Ed. Ática, 1999 ). Nele, cita  Roberto Drummond comentando a “necessidade de  nos livrarmos da censura de esquerda, que na verdade somos nós mesmos, já que alguns autores  se cobravam ter um ideal a defender. Ana  lembra que na literatura vale tudo, a vida, os amores, sonhos, decepções…”

Além disso, cada um de nós tem sua maneira de contar os fatos, e este jeito é trabalhado ao longo de um tempo. Por vezes queremos fazer um texto de uma maneira, mas não estamos  certos de como transmitir aquela idéia, ou ainda a associação de idéias acaba nos levando para lugares inesperados. A essência pode continuar a mesma, ou seja, o que você queria vai ser dito, mas a forma, esta precisa ser lapidada.

Aqui vem uma dica, como qualquer atividade nova na nossa vida, escrever demanda treino, disciplina e constância para que a atividade possa ser automatizada.  Esta prática leva a destreza necessária para escrever no seu estilo. Ana Maria Machado, no livro Ruth e Ana, conta que no começo de sua carreira se esforçava para escrever todos os dias, pelo menos uma página. Pode parecer pouco, mas uma página bem escrita demanda muitos pensamentos, sentimentos e releituras, e trabalho árduo!

Outra dificuldade da escrita: alguns assuntos que nos chamam atenção podem esbarrar em sentimentos que nos causem sensações desagradáveis. Então nosso inconsciente nos leva por meandros que nem sempre temos condições conscientes de resolver. Nestes casos o texto fica parado até que o inconsciente consiga uma maneira de sublimá-lo, ou em linguagem leiga, até que o inconsciente consiga encontrar um jeito de lidar com a situação. Quem sabe a solução não pode vir da reflexão sobre o texto?

Por isso é importante alguns cuidados:

Primeiro: não se preocupe com o que as pessoas vão pensar. Você não consegue controlar os pensamentos dos outros, portanto desconsidere esta variável. Preocupe-se em mostrar o que você acredita. Faça uma escrita que lhe apeteça, que saia de dentro, que te encante.

Além disso, como é que você sabe que as críticas serão aquelas que passam pela sua cabeça? Não sabe. E quem disse que a crítica está certa? Vemos muitos filmes que a crítica não gosta e o público adora, e vice-versa.

Segundo: escreva pensando em alguém, tanto faz em quem. Quando se escreve pensando em alguém o pensamento sai coerente do começo ao fim, a escrita  faz sentido.

Terceiro: um bom texto traz alguma coisa nova, um ponto de vista, a argumentação, a maneira de encadear os fatos, a ironia, etc. Este algo mais é a maneira do escritor transcrever a realidade, seus valores e esperanças, e é único. Portanto, seu ponto de vista faz diferença.

Quarto: não critique tanto seu texto depois de pronto, deixe-o decantar por um ou dois dias e só depois o releie. Este tempo pode lhe ajudar a identificar se fez ou não um bom trabalho. Quando lemos a escrita em seguida, não conseguimos ter uma boa crítica.

Quinto:  peça a opinião de pessoas que você confie, mas que possam fazer uma leitura crítica. Dizer que está ótimo, só porque gostam de você não ajuda.

Finalmente não desista. Por mais trabalhoso que seja, escrever é uma atividade profundamente prazerosa.

Boa semana e boa escrita.

jun 1

 Quantas vezes temos uma idéia brilhante e achamos que esta idéia daria um artigo, um livro, uma peça? Mas ao sentarmos em frente ao computador, de repente a idéia vai embora, talvez não totalmente,  falta  alguma coisa para que a escrita saia. Cada frase, cada pensamento nos remete a críticas que alguém possa fazer. Tudo nos leva ao fracasso.

Mas o que causa este bloqueio? Leia a postagem completa »

« Postagens anteriores