Pode parecer estranho, mas tenho percebido que muitas crianças tem medo de ET, com seus olhos enormes e seus poderes inimagináveis. Não se enganem, estes ETs não são seres extra terrestres como pode parecer, são seres bravos! Isso mesmo, as crianças ficam desconfiadas que suas mães e pais possam ser ETs quando eles ficam muito nervosos. Vale lembrar que os filhos são seres frágeis, e tem medo de não serem aceitos, de não serem amados, de serem abandonados. Por isso, algumas crianças desconfiam que os pais quando ficam “fora de controle” ( muito nervosos, muito bravos, explosivos) foram “abduzidos”. Melanie Klein já dizia que os bebes reconheciam um seio bom e um seio mau, e o seio mau era aquele que não estaria de prontidão quando o bebe precisasse; por isso acho que os ETs para estas crianças, são a encarnação da mãe má, aquela que briga, aquela que não faz o que o filho quer, aquela que dá medo, em outras palavras, todas nós em algum momento.
Outras crianças tem outros medos não menos assustadores, como por exemplo, medo de Jesus. Lembro de uma menininha que não conseguia passar pela sala onde havia um quadro da santa ceia: temia que Ele visse alguma coisa que ela teria feito de errado, e a castigasse.
Por isso nós do Florescer não estranhamos os medos que aparecem, e não foi diferente com Maíra. Ela tinha medo de ETs. Pesquisamos o relacionamento familiar: pai que batia, mãe deprimida que não conseguia parar os excessos do pai. Conversamos com pai e mãe, fortalecemos a família, mas nada disso mudou o medo da filha.
Conversa vai, conversa vem, descobrimos que ela ficava na casa de uma cuidadora quando voltava da escola, e esta mulher tinha um filho adolescente. Estranhamos. O psicólogo perguntou à menina o que ela achava do tal garoto. Ela se retraiu. Investigando, descobrimos que ele abusava dela na hora em que a mãe dele ia para cozinha fazer qualquer coisa.
Seria este o medo do ET?
Foi numa roda de conversa, que descobrimos que a mãe já tinha ouvido a filha reclamar do abuso, e por isso mudara de cuidadora. A mãe sentiu-se diminuída, como se o abuso fosse culpa sua. Impotente por não conseguir cuidar de Maíra como deveria, esmagada por suas convicções religiosas, vivia apavorada com a possibilidade de ser chamada no Conselho Tutelar, e talvez perder a guarda da menina.
De repente tudo fez sentido: D. Antônia, a senhora tem noção que sua filha é uma menininha indefesa em relação a um adolescente? Sabe que um adolescente é maior, mais forte e tem poder de persuasão? Sabe que ela não teve escolha? Quer dizer, ela pode ter cedido ao abuso, mas o que ela poderia fazer nestas circunstancias? Estou sentindo que a senhora avalia esta situação como se a Maíra fosse grande e dona de seu nariz, mas não é o caso.
A senhora é muito religiosa não é? Leva sua filha à igreja? Já lhe falou sobre pecados?
Chamamos Maíra e perguntamos sobre a igreja, os sermões e os pecados. Ela começou a chorar. D. Antônia também desabou num choro de culpa e dor. Ambas acharam que tinham pecado mortalmente e temiam pela punição divina, uma por permitir o abuso, outra por não ter conseguido evitá-lo.
O medo do ET era na verdade, o medo de um ser onipresente, onipotente e que viria castigá-la. O medo de Maíra era o medo de Deus.
Fica aqui um recado para pais religiosos: cuidado com o que você fala sobre Deus, porque isso pode afastar seus filhos do mais importante, do amor fraternal e incondicional que Jesus pregou.
Boa semana